Ele se deita ao meu lado e fala
e a dormir se mexe e suspira.
Da cama oposta ouço ranger de dentes,
na longa noite que se inicia.
e mansamente a noite vai passando,
a me mostrar que vem raiando o dia.
Cabelos de ouro vejo a rebrilhar no quarto,
na luz de vela ou já da madrugada,
a contornar cabeça bem talhada,
ligada a um corpo em que adivinho o tato,
ao qual profano so em pensamentos,
com o qual eu durmo e nunca acaricio,
alem de um afago do meu longe olhar.
E quando enfim vejo raiar o dia,
levanto-me e cuidadosamente sento-me na cama
e vendo essa crianca que em sonhos se agita,
me surpreendo cantando cantigas
que minha mãe cantava a me ninar.
Ele se acalma e volta ao sono lento,
enquanto eu abro e porta e saio pra rua,
em busca de outras mãos para me tocar.
Paulo Nunes
New York
3 de Agosto de 1982
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